TIRADENTES: HERÓI, VILÃO OU…?

A História costuma dar voltas e voltas. Para um cidadão comum, nem sempre é fácil perceber permanências e rupturas no processo histórico. Para os historiadores, a coisa fica um pouco menos complicada. Exemplo disso é a tão próxima figura de Tiradentes, que para nós ouro-pretanos, ano após ano, convivemos com o feriado de 21 de Abril. Mas, afinal de contas, o que representa este feriado? Segundo relatos históricos, Tiradentes recebeu a sua sentença de morte dois dias antes, e no dia 21 de Abril, no Largo da Lampadosa, centro da então capital colonial do Brasil, a cidade do Rio de Janeiro, foi enforcado. A história, então termina aí, certo? Nem tanto.

Tiradentes não foi considerado um herói imediato, até porque não se tinha ideia da importância da Inconfidência Mineira na época. No século XX, Tiradentes “reapareceu” na História totalmente diferente: barbudo, de roupas longas e a caminho do cadafalso. Coincidência? Não. Havia no final do século XIX uma corrente historiográfica de nome Positivismo, claramente identificada com a República, que tratou de reconstruir e se apropriar da imagem de Tiradentes como o mártir da Inconfidência: alguém que morreu em prol da liberdade e do progresso da nação.

Então, dito de uma forma mais didática, Tiradentes não poderia aparecer daquele jeito na iconografia (estudo e análise de imagens), até porque um alferes não usava barba e, em tão pouco tempo, não faria uma barba crescer tanto, concorda? A História usou a figura heroica de Tiradentes para construir um mito nacional. O que a História nem sempre conta é o fato de Joaquim José da Silva Xavier ter sido um homem comum, que tinha amigos, esposa, filha. Sim, ele tinha uma vida como eu ou você. Apenas foi tido como um símbolo de herói nacional.

E o que tem o feriado a ver com isso tudo? Bem, seria uma ótima oportunidade para saudarmos alguém que realmente se sacrificou em nome de uma colônia menos explorada por Portugal, e quem sabe até pudesse vir a ser uma nação livre. Ao invés disso, temos medalhas distribuídas nem sempre de forma justa e meritória. Torçamos para que o 21 de Abril seja, de fato, representativo no coração dos brasileiros, em honra a todos os que lutaram pela opressão e injustiça, não somente a Tiradentes. E que seja dado a ele um lugar real na História do Brasil.

Será que podemos responder a pergunta título deste texto agora? Será que Tiradentes foi um herói, um vilão, ou nenhum dos dois? Eu diria que ele foi um homem comum, comprometido com a sua sociedade e com seus ideais, com defeitos e virtudes, exatamente como nós. Aliás, não se esqueça de que não somente Tiradentes fez História, mas todos nós diariamente a fazemos.

Portanto, não pensemos em Tiradentes ou em qualquer outro personagem histórico como alguém distante de você. Mas aprendamos a respeitar o valor que Tiradentes teve em sua época e nas posteriores, ressaltando a importância de um olhar crítico a tudo que nos circunda. Reflita sobre o seu processo histórico e ÓTIMO FINAL DE SEMANA  PARA VOCÊ!

 (Eduardo C. Souza é professor de História do Colégio Arquidiocesano, Unidades Ouro Preto e Cônego Paulo Dilascio).

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